Mulheres, quero ouvi-las... Depois a gente conversa.


Deus e seus atributos femininos
Marcella Bastos

Quando se fala de Deus, geralmente sua imagem está ligada à figura masculina. Atributos femininos, no entanto, podem ser encontrados na pessoa Dele. É o que afirma a Teologia Feminista, que se propõe a estudar a Bíblia do ponto de vista feminino e evitar que as pessoas enxerguem apenas as características masculinas de Deus.

Uma das preocupações dessa vertente da Teologia é a imagem do Criador e a presença dessa imagem em cada pessoa. Porque como Deus é interpretado como homem, o gênero masculino parece se sobrepor ao feminino. “Deus está acima da condição sexual. Ele é a causa de tudo, por isso, não é nem homem nem mulher e sim a junção dos dois”, disse a professora da cadeira de Teologia da Mulher da Escola Superior de Teologia (EST), Elaine Neuenfeldt.

A Teologia Feminista chama a atenção para o direito da mulher à expressão e realização. Isso deve acontecer não por mera concessão da parte do homem, mas pelo respeito para com a dignidade dela, representada por suas características peculiares (físicas e psicológicas), além de seus ideais, preferências e opiniões.

Segundo Elaine, que também é pastora da Igreja de Confissão Luterana em Porto Alegre (RS), a mulher sempre esteve presente nas passagens bíblicas, desenvolvendo um importante papel na história da salvação. Muitas foram protagonistas, como Sara, Rute, Débora e Ester, mas outras, apesar de anônimas, fizeram parte da vida dos apóstolos e foram decisivas para que o Evangelho fosse disseminado em todo o mundo.

ORIGENS DO FEMINISMO CRISTÃO

No fim do século passado, um grupo de mulheres cristãs norte-americanas, lideradas por Elizabeth Cady Staton, começou a se reunir periodicamente para estudar todas as passagens bíblicas onde havia referência à mulher. O objetivo era fazer uma releitura e interpretá-las à luz da nova consciência que a mulher tinha de si mesma.

Nesses encontros nasceu a Woman’s Bible (Bíblia da Mulher), editada em duas partes, respectivamente em 1895 e 1898, uma obra que abalou o mundo protestante americano. A realização desse vasto projeto de revisão e re-interpretação da Bíblia feita por mulheres foi o primeiro sinal marcante de um novo pensamento feminino, que amadureceu também no interior de comunidades cristãs.

A idealização da Bíblia da Mulher foi considerada como fato tanto cultural, como eclesial. Foi também um ponto de partida de um longo processo, que por volta dos anos 60 levou à elaboração do projeto de uma Teologia Feminista.

Outro momento importante aconteceu no período entre 1956 e 1965, quando as principais correntes do protestantismo decidiram admitir as mulheres no pastorado nos Estados Unidos. Esse fato representou uma grande novidade eclesiológica nestas comunidades, com exceção das igrejas livres americanas, que já praticavam a ordenação de mulheres desde 1853.

TEOLOGIA FEMINISTA x TOLOGIA DA MULHER

Teologia Feminista e Teologia da Mulher não são a mesma coisa. A primeira critica a segunda por causa de sua unilateralidade e de seu androcentrismo (pensamento centrado em si mesmo). Para Elaine, Teologia da Mulher perpetua estereótipos que a Teologia Feminista procura demolir. Por exemplo, uma “teologia da mulher” exigiria como contrapartida a elaboração de uma “teologia do homem”, ao passo que a feminista se auto-compreende como uma contribuição crítica para uma “teologia da integralidade”, que lida com os gêneros da mesma forma e importância.

Sendo assim, a Teologia Feminista é pela libertação das mulheres. É uma reflexão elaborada e praticada por elas e que busca tirá-las das sombras para colocá-las no mesmo patamar dos homens. “Pela primeira vez, concretamente, as mulheres se tornaram sujeito de sua própria experiência de fé, de sua formulação e da relativa reflexão, e por isso, aptas a construir teologia”, afirmou o pastor Edson Fernandes, da Igreja Cristã de Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, que também é professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.

Através dessa nova forma de estudar a Bíblia, as mulheres são capazes de refletir sobre suas experiências humana e cristã, e olharem para si mesmas com um olhar crítico. Desse modo, a Teologia Feminista introduz no círculo hermenêutico (o círculo que liga a experiência do passado, utilizando textos bíblicos e a tradição à experiência atual da mulher) a participação feminina, enriquecendo a fé, a sua formulação e as suas expressões.

A Teologia Feminista não quer ser unilateral, mas deseja reagir com eficácia à falta de imparcialidade da teologia dominante e prática eclesial. Sobre esse equilíbrio entre homens e mulheres, o pastor Glauner Pereira, que é professor do Seminário Teológico Batista Gonçalense, ressaltou o seguinte: “Quando a Teologia Feminista se dispõe a ceder seu lugar a uma equilibrada, justa, saudável e romântica Teologia dos sexos ou dos gêneros, que não subtraia nada do valor e direitos da mulher, ela mostra-se sábia. Se, por outro lado, ela fizer questão de se manter como um corpo autônomo, tão insensível como a insensibilidade que veio questionar, prestará um desserviço à Igreja de Cristo. A Teologia Feminista surgiu como antídoto a um problema, devendo se guardar de torna-se, ela mesma, outro problema”.

Os teólogos consultados por Enfoque foram unânimes ao afirmar que qualquer perspectiva que pretenda propor-se como luta dos sexos não passa de uma ilusão e perigo. Desembocaria em situações de segregação e de competição entre homens e mulheres e promoveria um solipsismo, ou seja, um isolamento, que se nutre de uma falsa concepção de liberdade.

INTERPRETAÇÃO NÃO PARTIDÁRIA DA BÍBLIA

A Bíblia ensina a submissão da mulher ao homem, e durante muito tempo as igrejas interpretaram esse ensino como sendo desfavorável ao sexo feminino. Alguns estudiosos apontam que as Escrituras foram usadas como arma política contra a emancipação da mulher, para que ela fosse reprimida e renegada ao segundo plano.


Elaine afirmou que Deus não é homem, tão pouco mulher. A pastora e teóloga ressaltou que o Criador está acima da condição sexual

Para a bispa Marisa Coutinho, da Igreja Metodista do Brasil, a atual imagem da mulher está contaminada pelo pecado. “No hebraico, a palavra idônea significa completa, inteira, ou seja, a mulher foi criada por Deus para andar ao lado do homem de forma completa”, disse, ressaltando que tanto homens quanto mulheres são iguais diante do Criador.

A hermenêutica bíblica feminista se propõe a mudar a má interpretação dos textos sagrados, além transformar o que os teólogos apontam como um problema cultural de poderes entre os sexos. Para isso, são usadas análises e temas de reflexão com uma linguagem e um imaginário elaborados na perspectiva da mulher. Dessa forma, são acionadas a sua capacidade de integração, seu senso de comunidade, sua proximidade com a natureza, servindo para superar distorções patriarcais e para reconstituir um elo de igualdade.

“Não existe nenhum texto bíblico em que Jesus impeça as mulheres de se aproximarem Dele. Ele se relaciona com elas e as inclui como co-participantes de seu ministério”, afirmou Elaine. A pastora também ressaltou que o parâmetro dos cristãos é Cristo e que, portanto, é necessário seguir essa prática para que a mulher seja livre para exercer o seu ministério sem preconceitos e fundamentalismos patriarcais.

Um exemplo prático disso é o uso da chamada Linguagem Inclusiva, que não usa o gênero masculino como universal. Antes, procura a designação geral que abranja o homem e a mulher. Por exemplo, ao invés de dizer “irmãos”, masculino plural, para aludir a ambos os sexos, usa-se “irmãos e irmãs”.


DEUS E O AMOR DE MÃE

Outra mudança é a constatação dos atributos “femininos” de Deus. Segundo Elaine, na Bíblia, o amor divino é comparado ao amor de mãe e não ao de pai. Em Lucas 15, versículo 8, Deus é representado como a mulher que varre a sua casa e encontra a dracma perdida. “A figura masculina de Deus está ligada à ordem e à lei, mas quando é necessário apontar seu amor, a imagem usada é a da mãe, que representa amor, carinho e acolhimento”, constatou o pastor Edson Fernandes.

Mulheres são protagonistas e co-participantes da proposta do reino de Deus. Ele criou homem e mulher para que juntos governassem a terra. A Teologia Feminista deve servir para mostrar que a mulher não é objeto em sua relação com o homem, mas comprovar que os dois são co-sujeitos dos projetos divinos.

CONTRIBUIÇÃO FEMININA NA BÍBLIA
Ariane Azeredo

Durante toda a Bíblia, diversas mulheres foram usadas por Deus para cumprir seus propósitos. Umas, santas e recatadas, como Maria (Mateus 1:18), mãe de Jesus, Izabel (Lucas 1:5), mãe de João Batista, e ainda Ana (I Samuel 1:2), mãe do profeta Samuel. Outras, excluídas da sociedade, como Raabe (Josué 2:1), a prostituta que ajudou os espias na terra de Jericó e que entrou na genealogia de Jesus, e Maria Madalena (Mateus 28:1), ex-prostituta, que foi, ao lado de outra mulher, a primeira pessoa a ver Cristo ressurreto.

Algumas foram protagonistas de cenas repletas de ternura e amor de Cristo, apresentando a força da mulher e a sua capacidade de transformação e de determinação, como a adúltera (João 8), a samaritana (João 4), a mulher com fluxo de sangue (Marcos 5:25), a viúva de Naim (Lucas 7:11), a sogra de Pedro (Lucas 4:38) e tantas outras anônimas.
Um simbolismo que não pode passar despercebido é que Cristo chama a igreja de noiva, uma mulher, que devia estar preparada, devidamente ataviada e adornada para encontrar-se com seu noivo. Mais uma vez, a beleza, a delicadeza e a sensibilidade da mulher são exaltadas na Bíblia, não como um ser abaixo do homem, mas como alguém que tem características únicas e contribuições ímpares para a realização da vontade de Deus na terra.

http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=58&materia=403

Alguns artigos interessantes:
www.lstc.edu/lifelong_learn/06summersession/Garcia_Bachmann_biblio-rev1.doc
http://www.abiblia.org/artigosview.asp?id=80
http://www.ecaminos.cu/leer.php/3842
http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=291

5 comentários:

Leandro Neres disse...

Uia, minha profi aí! =p
Se ela ver isso me mata :D

Lorena disse...

Que MUITO interessante!! =D
Acho que minha paróquia é "prefrentex" então, pq o padre sempre fala "que o amor de Deus, que é Pai e Mãe, esteja sempre convosco" e também sempre usa o "irmãos e irmãs"! =D

Eu gosto de observar a importância feminina não só nos primórdios do cristianismo, mas no dia a dia das igrejas mesmo. Por mais que só padres possam celebrar a missa, as mulheres são 80%, pelo menos, da força tarefa dentro de uma igreja, pelo menos católica (não conheço mto a realidade das outras, mas creio que na maioria seja assim). Nós somos agentes ativos do cristianismo! =)

Adorei o texto e sua professora tb! =P

Vidal disse...

Mano esse texto foi sumpimpa! Gosto de ler e estudar também coisas relacionadas às 'teologias da libertaçao'. Com respeito à Teologia feminista (que eu li bem pouco ainda, por isso gostei do texto) uma coisa é certa, é necessário mudar a mentalidade machista das igrejas, onde DEus é sinônimo de pai. Em nossos dias ele é mais mae que pai com certeza rsrs.

Mas me diz Marcela Bastos é sua professora é? Que legal!

Leandro Neres disse...

Puxa, acho q não fui tão explícito, a profi é a Elaine, da foto =)

Alice disse...

E eis que leio sobre religião...

Adorei a leitura, Leandro. Me abre os olhos para muitas coisas que tenho evitado. Sou de uma família cristã, filha de uma mulher que acredita em imagens e irmã de uma mulher que, todas as vezes que me telefona, me leva em uma jornada através do Novo Testamento e o Velho Também. Minha irmã faz parte de um grupo que estuda a Bíblia. Tenho que admitir que, se tem um livro no mundo do qual tenho medo de ler e fazer uso ou fazer análises, é a Bíblia. Que me perdoem os agnósticos, ateus e outros tantos. Estudei em colégio de freiras a vida inteira quase e todo dia era uma pregação e sempre me dava a idéia de Eva Pecadora, Maria Madalena e as pedras e outras mais. Sempre vi a mulher como começo do pecado, culpada e quando li Provérbios, senti claustrofobia. Aquelas passagens sobre a mulher bordar para ajudar o marido ou sobre menstruação e adultério. E sempre Deus - poderoso e soberano sobre todas as coisas e a mulher lá, sofrendo flagelos. Depois que assisti ao filme Dogma, mudei um pouco meu ponto de vista. Sim, Deus poderia ser feminino ou talvez assexuado - assim como os anjos. Acredito que somos todos iguais, embora a sociedade ainda tente separar homem e mulher como joio e trigo.