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Ensaio




Sua voz doce, suave cetim
mergulhos, tristezas, frustrações
sonhos de menina, desejos de mulher
mente adolescente, cansaço de mãe
Amor impossível entre pausas
eram suas canções.

Ao som da Rapsódia Hungara N. 02 - Franz Liszt






Rapsódia em movimento - O convite


Tímida, você? Olho em teus lábios, boca
face cor de maçã, sorriso espontâneo
Aceite, é só um movimento, venha cá
isso, sem pressa, pode rir, ode a alegria

Não se preocupe, isto, está indo bem
vê como não é difícil? Sim, as crianças
elas também dançam, todos aqui
pronto, estamos em sintonia.

Vejo teus olhos fechados, silêncio
estamos só nós dois, sinto teu pulsar
teu coração soa leve, silencia em noturnos
logo se alegra, começa a acelerar, festivo

O movimento é o mesmo, a dança é ímpar
O coração é que muda de intensidade
parece outro tema, minueto, renovemos
nosso amor ao som da inspiração

Sorrimos, já estamos íntimos, somos um
scherzo bailando a canção de circo
já não importa qual é a variação
o movimento se repete, o amor se constrói

Até a sonata infantil nos aproxima
E o salão é nosso, não importa
todos os amantes pensam o mesmo
tudo ao redor é só figuração musical

Recordação


...sea... by ~frida-vl on deviantART

Pela noite.
Ó morena do mar,
Trago, consumo,
desejo em palavras
fortes ventos de esperança,
em noturna viagem, descanse.
Longa jornada,
és navegante
sob sopros do divino,
Que o sol lhe apresente o céu mais limpo...

Olhai as aves do céu,
Com sabedoria e buscas,
Descanse ao meio dia,
Sinta a vida, a consumir,
construir, fortalecer...

E o mar, está, existe, assim:
como versos confusos, por vezes
em decassílabos, em tempestades,
por vezes, monossílabos, em
Paz...

E faça festa
Então, se quiser,
Lance-se ao mar,
esqueça os mapas,
Saiba, haverá calmaria,
A mão que te guia a abraçará,
O infinito que a possui por graça
aqueça-lhe num sem-fim de alegria,
sorrisos, como versos em poemas,
que parecem não ter começo, nem fim...

Avientame - Cafe Tacuba



Desejos vãos
(Florbela Espanca - Livro de Mágoas)

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…


Desespero

Castro Alves

"Crime! Pois será crime se a jibóia

Morde silvando a planta, que a esmagara?

Pois será crime se o jaguar nos dentes

Quebra do índio a pérfida taquara?

"E nós que somos, pois? Homens? — Loucura!

Família, leis e Deus lhes coube em sorte.

A família no lar, a lei no mundo...

E os anjos do Senhor depois da morte.

"Três leitos, que sucedem-se macios,

Onde rolam na santa ociosidade...

O pai o embala... a lei o acaricia...

O padre lhe abre a porta à eternidade.

"Sim! Nós somos reptis... Qu'importa a espécie?

— A lesma é vil, — o cascavel é bravo.

E vens falar de crimes ao cativo?

Então não sabes o que é ser escravo!...

"Ser escravo — é nascer no alcoice escuro

Dos seios infamados da vendida...

— Filho da perdição no berço impuro

Sem leite para a boca ressequida...

"É mais tarde, nas sombras do futuro,

Não descobrir estrela foragida...

É ver — viajante morto de cansaço —

A terra — sem amor!... sem Deus — o espaço!

"Ser escravo — é, dos homens repelido,

Ser também repelido pela fera;

Sendo dos dois irmãos pasto querido,

Que o tigre come e o homem dilacera...

— É do lodo no lodo sacudido

Ver que aqui ou além nada o espera,

Que em cada leito novo há mancha nova...

No berço... após no toro... após na cova!...

"Crime! Quem falou, pobre Maria,

Desta palavra estúpida?... Descansa!

Foram eles talvez?!... É zombaria...

Escarnecem de ti, pobre criança!

Pois não vês que morremos todo dia,

Debaixo do chicote, que não cansa?

Enquanto do assassino a fronte calma

Não revela um remorso de sua alma?

"Não! Tudo isto é mentira! O que é verdade

É que os infames tudo me roubaram...

Esperança, trabalho, liberdade

Entreguei-lhes em vão... não se fartaram.

Quiseram mais... Fatal voracidade!

Nos dentes meu amor espedaçaram...

Maria! Última estrela de minh'alma!

O que é feito de ti, virgem sem palma?

"Pomba — em teu ninho as serpes te morderam.

Folha — rolaste no paul sombrio.

Palmeira — as ventanias te romperam.

Corça — afogaram-te as caudais do rio.

Pobre flor — no teu cálice beberam,

Deixando-o depois triste e vazio...

— E tu, irmã! e mãe! e amante minha!

Queres que eu guarde a faca na bainha!

"Ó minha mãe! ó mártir africana,

Que morreste de dor no cativeiro!

Ai! sem quebrar aquela jura insana,

Que jurei no teu leito derradeiro,

No sangue desta raça ímpia, tirana

Teu filho vai vingar um povo inteiro!...

Vamos, Maria! Cumpra-se o destino...

Dize! dize-me o nome do assassino!..."

_________________

"Virgem das Dores,

Vem dar-me alento,

Neste momento

De agro sofrer!

Para ocultar-lhe

Busquei a morte...

Mas vence a sorte,

Deve assim ser.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Pois que seja! Debalde pedi-te,

Ai! debalde a teus pés me rojei...

Porém antes escuta esta história...

Depois dela... O seu nome direi!"

O Blues tem rosto

Quantos, ei, pobre homem! Já ouviu?
Caminhou pela noite e sentiu dor...
Chorou pra não falar de seu amor...
Guardou no peito aquilo que sentiu?

Foi com seu, puro, olhar que a flor sorriu
Viu que Ela era música, gesto e odor
Sentou no chão, simples, alma e Calor
Pegou o lápis, som que ninguém ouviu

Foi seu primeiro blues, vinte e seis
Pela estrada, moto e vinho, sua fé
Percorreu o mundo, restou-lhe boa voz

Face, pura dor, fez oitenta e seis
Sua velha guitarra, nobre, de pé
É digno em ser, canto, soul, feroz!

Leandro

Foto retirada de Reconstrucion.

Nostalgia

E os desejos adormecidos,
com um sopro do belo, acordam,
e trazem amores guardados,
da infância, da adolescência,
de algum caminho longo...

Sopro divino, renasce
o que esta no coração
do que somos, e daquilo
que nos construiu

Não são as palavras em si de Hey Jude
que trazem aquelas lembranças
é o som, o simples som daquela musica,
lembra-me Juliana, cloro, piscina...

O significado não importa
o que me toca, arrepia
são os gritos de Eco trazidos
de alguma memória do passado

Pode ser um sino,
o barulho de trem,
é minha avó...
O disco de Belchior
meu tio, cantor, saudoso,
alegre, elegante, no céu...

O jogo de damas, eita vô,
o chá da tarde, feliz, vovó,
a risada feliz, minha tia, Maria...
Sentados no céu, no eterno
de meu coração, na construção
de minha alma...

Que palavras são estas, que cheiros
são estes, gostos, cores, perfumes,
toques e olhares, sons do passado
e o amor, que sendo amor
será eterno, vivo enquanto
sabor, cor, odor, palavra, som, frescor...

Pode ser silêncio, quando se
deita na cama e o vazio é
possuído pela lembrança
do esquecido, a casa
do desejo, que se nutre
pelo símbolo habitante
no cotidiano,
que me possui,
enfim, naquele video,
na voz de Vinicius,
no violão de Toquinho...

Eco ama, mas foge...

Ia Zeus, no bosque paquerava
Muitas ninfas, desejo a saciar
Galante, não hesitava em flertar
Hera, sua esposa, suspeitava

Marido e rei Hera procurava
Ninfa Eco intervém! A sussurrar...
Voz aveludada com dom de falar
Livra Zeus, que a casa voltava

Hera desconfia, e tudo descobre
Vinga-se da ninfa Eco, e age:
Do dom de Eco resta o estresir

Eco ama Narciso, mas só sofre
Como não pode declarar-se foge
Às montanhas, triste, a nos repetir

Leandro

Blues Shakespeariano

(Em lembrança a Danny Boy)

Passos marcados, cortejo fúnebre
Ternos, pastas marrons, vento gelado
Som de bebê chorando, nada é alegre
Saltos vagarosos, lenço molhado

Jovem Daniel, você cresceu, feliz
Tenho orgulho, carinho, tu és paz
Pelo alto as estrelas são como giz
E pintam as cores tuas num cartaz

O verão passou, você se foi, adeus
Eu continuo aqui, faça sol, faça frio
Nas flores depositou, pedidos teus
A neve encobriu, vento a beira rio

Outro verão passou, jovem cantador
Gaita na mão, com os pés marca teu amor

Leandro Neres.

Eva Cassidy - Oh! Danny Boy

Danny Boy (Frederic E. Weatherly)
Oh Danny boy, the pipes, the pipes are calling
From glen to glen and down the mountain side
The summer's gone and all the roses dying
'Tis you, 'tis you must go and I must bide

But come ye back when summer's in the meadow
Or when the valley's hushed and white with snow
And I'll be here in sunshine or in shadow
Oh Danny boy, oh Danny boy I love you so

But if he come and all the roses dying
And I am dead, as dead I well may be
He'll come and find the place where I am lying
And kneel and say an ava there for me

And I shall feel, oh soft you tread above me
And then my grave will richer, sweeter be
For you will bend and tell me that you love me
And I shall rest in peace until you come to me


Hereges são imortais


Ser herege é andar na contramão;
É dizer o não dito, falar o que foi proibido,
e por vezes, ser mal-dito;

Hereges têm um poder indestrutível,
de lutar com o intocável no poder de pensar,
de existir e não se deixar levar pela historia,
mas na história agirem, conscientes, existentes;

Pensamentos não se depreciam, mas se criam;
Somos feito de palavras ditas, de palavras mal-ditas;
Um herege é aquele que da palavra absorta
reconstrói àquilo que da vida e lhe eleva a beleza;

Para curar um herege não basta um castigo,
Por isto a fogueira é o único caminho;
Porém, mesmo que em cinzas, este ser pode renascer,
nas almas, nos corações dos que respiraram daqueles pensamentos;

Pessoas morrem, mas pensamentos sempre ecoam, incomodam, renascem.